06/10/09

há fotografias como punhais

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há fotografias como punhais

Rogel Samuel


Para ela fotografias há que são punhais, poemas tamém, os poemas todos já foram escritos, reescritos, ela só faz este pedaço do oficio, o oficio das trevas, das argilas, dos pedaços de argila, impressos na chuvas, nos ventos, nas folhas noviças, o pai, a mãe ja partiram, e se foram numa voragem de passado remoto, a moça feia de varíola nunca amada que na taberna de Vladivostoque se ofereceu a Joseph Kessel, como pouca gente sabe, daquela guerra, deste verso, quase desconhecida guerra, mas ela lá esteve, e trouxe o verso, e por isso os outros versos todos já foram escritos, são chagas, são punhais crescendo bem como fogo, porque tudo é um problema insolúvel...

há fotografias como punhais. e poemas também.

todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila

neles todos estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos e
meu pai e minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto

e também a rapariga feia e bela desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel

talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca terá sido dito deste modo
e foi acontecido durante a guerra sino-japonesa

quase ninguém esteve lá para o ver

mas eu estive. trouxe -o comigo.
é exactamente por esta razão que os meus poemas

já foram todos escritos.

são como chagas alastrando e crescendo em searas de fogo

estando entre a terra e as estrelas.

sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel







MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos



in "ROGEL SAMUEL"

05/10/09

as vogais de água


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Maria Azenha

As vogais de água

Rogel Samuel



Azenha nos fala de lugares (sagrados) onde chegam sons misteriosos milagrosos estranhos
sons de vogais de água, talvez de chuvas, talvez de fontes, talvez de mares, novos e
reunidos por assomos de memória, por redes vertiginosas de emblemas, de entoações
concentradas por palavras, por luzes e lanternas, por velas em "ii", por projetos
diluídos em água, em feminina água, em espelhos de água, onde transporta seus sonhos
de um lado para outro, abrindo a fórceps um buraco nos espelhos...






vogais de água

há lugares onde chegam vogais de água
lugares novos espantados que assomam à memória
por redes vertiginosas

as suas entoações concentram-se em palavras fabulosas
palavras luminosas sur-
preendidas pelos castiçais dos ii

um projecto de água

digo:

transportar o sonho de um lado para outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos

MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos

in "ROGEL SAMUEL"

***

in " descer pelos dias"- foto de Maria Costa

28/09/09

da criação à edição



"O Poeta só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo"- António Maria Lisboa



Momentos registados:


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1.Maria Azenha lendo Poesia inédita de Fernando Esteves Pinto


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2. Maria Azenha e Gabriela Rocha Martins interpretando Poesia com as luvas de Aprendizes



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3. Outro momento de poesia gestual


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4. Gabriela Rocha Martins e Daniel Vieira

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5. Daniel Vieira e Lisete Martins

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6. Inês Ramos e Fernando Esteves Pinto

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7.Inês Ramos, Fernando Esteves Pinto, Gabriela Rocha Martins, Daniel Vieira e Lisete Martins.






Intervenientes: Fernando Esteves Pinto, Gabriela Rocha Martins, Lisete Martins, Maria Azenha, Maria Costa, Daniel Vieira, Adão Contreiras.

Moderadora: Inês Ramos.

08/09/09

há letras e letras





Lançamento de CD - "O mar atinge-nos" de Maria Azenha
com apresentação de Maria Gabriela Rocha Martins
e momento musical de Paulo Pires (Grupo Experiment'arte).



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Excerto do texto de apresentação:




(...) “O Mar Atinge.nos”, de Maria Azenha, é um CD de maturidade, um vinho que se vai degustando gota a gota, faixa a faixa, e que nos toca, quer através de uma doce melancolia que perpassa ao longo dos sons da guitarra portuguesa, quer nos rituais em que as palavras, ductéis, com ela, guitarra, participam.
Raros são, hoje em dia, os Poetas que, como Maria Azenha, detêm esta capacidade de abrir as suas gavetas para delas retirar referentes sociais – sempre presentes mas nem sempre legíveis -, neste gesto tão nobre, quanto transgressor, que a escrita implica.
Com efeito e em síntese, ouvem-se, neste projecto, ecos de uma mestria simbolista e, Maria Azenha, ao "jogo subtil das palavras" contrapõe "um silêncio no outro lado da palavra", isto é, os seus poemas podem viver bem alto ou remeter-se ao silêncio, por mais audível que este seja. Uma vez por outra, os poemas encontram um ritmo de corcel, um ritmo de estro inspirado, sendo, ainda de considerar, as suas preocupações sociais com a transformação do mundo.
Se a fragmentação em guitarra/voz/sons/palavras foi o caminho escolhido por Maria Azenha para dar corpo a este belíssimo Poema, no qual os referentes constitutivos estão claramente definidos, o conjunto das faixas delimita, com uma complexidade comovente, o território dos afectos, nunca totalmente revelado, das sensações, das recordações, da realidade gritante, dando vida a muitos dos seus fantasmas.
Repudiando simulacros, Maria Azenha (re)constrói.se sobre a poalha do tempo, ao repudiar o formalismo lírico ou ao acentuá.lo - caso, por exemplo, do poema com que abre o CD - sempre que a narrativa, imposta pela guitarra, o exige.
Não estamos muito longe da verdade quando afirmamos que, em "O Mar Atinge.nos", Maria Azenha percorre, mesmo quando desarmada, os labirintos da natureza humana, dissecando.os, em busca da sua essência.
E assim, termino,
rendida ao deslumbramento que este belíssimo projecto, da minha “irmã”, Maria Azenha, me provocou……
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"escrevo com uma lágrima do mundo
numa caixa de rosas com espinhos.
depois deito-me num quarto feito com paredes de papelão,
cubro-me com plástico e vou para um prédio
fotografar os meus pés ,sem descanso."*
.
.
.
agora "tenho medo" - sorris - solto o pássaro que se aprontou ao voo na sombra de um quarto onde outrora os papéis se descolaram .há nas paredes lastros rubros de sangue .são fios finos de silêncio por onde escorrem as palavras dúcteis que se prolongam nos teus dedos .teclas e sei que ousas .mãe ."agora tenho medo " da criança que estende os braços para dentro do sorriso e balouça o corpo no brilho azul do mar ."tenho medo" da mãe prenha de afagos que se vê num beijo fechado em si mesmo ."tenho medo" da mulher que desafia o tempo qual gaivota em voo plano dentro do coração vazio .ousas o olhar a fim de repetir - tanto (a) mar - na opacidade intransponível da indiferença ."tenho medo" quando abres os olhos na finitude imprevisível do porvir ou quando pétala viva - sorris - consciente do transitório e no não medo abres valas para um dia o sofrimento fenecer
cansado das ruínas dos dias


*Maria Azenha.
apontado por gabriela rocha martins in " the last dance"



05/09/09

"há letras e letras" em Silves


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Amanhã, 5 de Setembro, ... in " porosidade etérea"




programa em " Casa Museu João de Deus


22/08/09



o coração gasta-se

foram escritos a sangue os poemas
que hoje escrevi com o teu nome
todos pintados com as minhas mãos no tear
das ruas
áridas em vozes
à beira do rio passava
o álbum fresco das folhas mortas
do meu coração
perdidas há tanto tempo
como os bilhetes que te escrevo sem resposta

pouco haverá já que me prenda

pouco

encontrei hoje um cego

que parecias tu nos olhos


Maria Azenha

in "A perca"

21/06/09

Las Palabras




Las palabras son como hojas
No saben cuando están fuera de lo real,
Por ejemplo la palabra silencio,
Comienza por un "s" y quiere decir otoño,
Es la menos mortal.
Otras
A veces atraviesan las hojas de la noche
Y ponen su oído en el mar
Que se escribe con tres letras
Como
Tres escalones
Sagrados
Esta quiere decir eternidad
Purísima alegria.


Poema de: Maria Azenha (Blog Bosque Azul: http://coracaoazul-mariah.blogspot.com/)


in " SUSURROS" de Margarita Parada


12/06/09

poema para maria azenha





sua abalizada fala
de quem com a poesia se intima
sopra sim sobre essas salas
um manto de estrelas perfeitas


Rogel Samuel

in "novos poemas de Rogel Samuel"

04/06/09

o mar atinge-nos



O Mar atinge-nos




Maria Azenha acaba de lançar um CD de poemas, intitulado O Mar Atinge-nos. A escritora, ex-professora de Matemática da Escola António Arroio, tem voltado à escola e participado com regularidade em actividades culturais. Desta vez, veio Ouvir o Silêncio a Ler e agraciou-nos com três exemplares do CD para a biblioteca.


maria azenha - a rosa de el Saron




A Rosa de El Saron
(a Henrique Dória)

e eu que aprendi quase tudo e nenhuma coisa
sobre a vida e sobre a morte
sobre os rostos que me rodeiam
e alguns deles me atiraram pedras ao coração

quando à luz da noite me deito
extasiada pelas chamas do fogo
que me consumiram as mãos
já não sinto dor:
estou dentro dos teus olhos.

faço parte dessas longas chamas
como de uma confidência
esperando que apareça o outro Sol
e não pergunto ao mendigo como se sente
nem ao cego como vê nem ao que não anda
porque ficou na estrada
eu própria me converto no mendigo e no cego
e no que ficou preso aos seus próprios pés.

por isso sonho descobrir todas as estrelas
que me caíram do firmamento
e faço parte como vós dos raios da aurora
das cores imensas do arco-íris e do vento
das montanhas das serras
dos ecos e das visões
dos misteriosos rios que passam pelas aves e pelos homens
do desfile admirável das formigas
que me arrancaram as lágrimas e agora correm
como tesouros guardados na terra em areia húmida

desejo ver-me reflectida nos olhos das crianças
contemplar a minha irmã palmeira que voou da minha infância
para ficar aqui junto a vós no meio da página
onde vamos explodindo todos juntos na poeira

tudo isto sinto quase ninguém vê
e não pergunto nada
de cada encontro guardo um tesouro
e devolvo-o porque se mudou para o nosso comum destino
ao vaguearmos pelas praias com seus antigos náufragos

e o que encontrei é como um pássaro antes do amanhecer
a Rosa de El Saron que não conhece Ocaso

inclinando-se a teus pés na palavra mais doce

Maria Azenha


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maria azenha - a rosa de el Saron


in Artes e Letras- Escola Artística António Arroio

27/05/09

dos olhos de meu pai
























Tenho saudades dos olhos de meu Pai
eram um poço à roda, transparente, onde brincava à corda
sem sobressaltos.
A palmeira, em frente, era a guardiã da casa.

Minha mãe ensinava letras aos pássaros e aos pobres
no muro da praia do quintal
onde, às vezes, pousavam vozes em vez de rosas.
E fazia saias das calças de meu pai viradas do avesso
para levar à escola,
era um país de antigamente .

E uma bandeira foi crescendo para fora dos meus ossos
por detrás das grades,
em páginas de sol e liberdade.

Aprendo nos relâmpagos da chuva a palavra começo.
Sem os olhos de meu pai não conheço o vento
A enfeitar os galhos,


maria azenha


in Ao longe os barcos de flores