
A nova obra poética de Maria Azenha «De amor ardem os bosques» tem lançamento previsto para o final de Janeiro de 2010. A tiragem é de 250 exemplares, dos quais 50 são numerados e assinados pela autora. As reservas da obra podem ser feitas através do email:
26/01/10
de amor ardem os bosques
24/01/10
TAREFA DE POETA
O poeta é quem mais deve aclarar o dia
regar as palavras a horas diferentes
colher as ervas daninhas que minam o solo
colocar espantalhos no seio das janelas. porque
alguns ladrões vêm de noite pelo silêncio da lua
e de noite colhem vocábulos semelhantes a outros
alguns colocados em jarrões falsos de bruma;
semicerram os olhos
assinam por baixo com outra assinatura
o poeta tem o dever de reparar os estragos
feitos
com as graduações da matéria
é a boca ávida de luz que os chama
maria azenha
in "ENTRE TEXTOS- Dilson Lages
21/12/09
Alguns e outros poemas - " de amor ardem os bosques"
I
Pesei a minha melancolia e angústias:
uma tonelada cada uma,
o que significa que cada uma se prende e atrai de igual modo à Terra.
verifiquei no entanto que a quantidade de massa corpórea de que sou portadora
não me mortifica, e todos os meus livros não pesam mais de 20 quilos,
o equivalente a uma criança de dois anos de vida.
lembrei-me de aferir o peso de uma caneta que normalmente me escreve:
vinte e poucos gramas, pouco mais,
a mesma atracção que a Terra exerce sobre a minha colher de sobremesa.
inquietei-me , e fui pesar a Terra: a agulha não saiu do zero.
(a Terra não se atrai a si mesma.)
reiterando o procedimento quis conhecer o peso de deus :
verifiquei que eu e deus tínhamos pesos iguais.
II
Na neve primeira ofereci-lhe o sangue, na segunda e na terceira
o negro e o branco.
Nu, o pelicano, de peito amplo
retira da sombra da noite
o rosário do manto.
III
alva morada
Queria semear-me nas algas da casa
num refúgio fundo
antecipar o meu cipreste de neve
sobre as raízes da terra,
para quando os relógios da floresta me viessem chamar
batendo à porta de minha alva morada
eu dissesse:
“ aqui já ninguém está”
IV
alquimia
Na cozinha dormem as minúsculas laranjas,
são quase duas horas da manhã.
O luar entrou pelos lírios da casa,
já lá estive perdida antes, e mais só.
A noite, uma página onde os ourives do sol
trabalham na mais completa escuridão.
Escondidos do tempo,
adiantam-se para as montanhas.
As suas vozes tornam-se cada vez mais amáveis e estranhas,
clamam da distância.
V
Respira a neve no encosto alvo da madrugada:
rosa branca de água no pedestal da montanha
naufrágio da prata ou de minúscula aranha
que nos cedros do coração vem, exacta,
quebrar a dália do mármore.
O vidro , reflectido nas palavras do chão,
recomeça
buscando em cada superfície pombas de claridade
(...)
leia ainda no TRIPLOV - ESTELA GUEDES - "alguns e outros poemas de Maria Azenha".
O prazo de validade da escola
o prazo de validade da Escola
está fora do Um
entrego-me nas horas a polir as unhas ao Todo
o buraco da fechadura do mundo
está sujo
as empregadas
fecham as portas e marcam faltas
no supermercado onde vivo
escrevo no quadro está calada vânia
sem a metafísica do sujeito além do mais
o teorema de pitágoras foi de certeza roubado
da internet para testar a professora do armazém
deviam todos vestir a mesma bata para não se distinguir
a bélgica da alemanha da espanha e por aí fora
e também o país às terças feiras
quando toda a gente vai fazer compras
ao armazém de george orwell
as refeições continuam a ser repressivas
ninguém sabe o que come "está bem"
mas ficámos uns com os outros por causa da noção do todo
Maria Azenha
12/12/09
***
( para maria azenha )
há muito tempo os poemas
jaziam no jardim abandonado
folhas secas
plantas tímidas
entre a estatuária de
deuses
e alegorias
de mármore
mas a rainha das musas
os despertou
e os fez
novamente falar
como quem experimenta desconhecidos
discos de vinil
deixados por um antigo
no fundo do melhor armário
Rogel Samuel
11/12/09
09/12/09
06/10/09
há fotografias como punhais
há fotografias como punhais
Rogel Samuel
Para ela fotografias há que são punhais, poemas tamém, os poemas todos já foram escritos, reescritos, ela só faz este pedaço do oficio, o oficio das trevas, das argilas, dos pedaços de argila, impressos na chuvas, nos ventos, nas folhas noviças, o pai, a mãe ja partiram, e se foram numa voragem de passado remoto, a moça feia de varíola nunca amada que na taberna de Vladivostoque se ofereceu a Joseph Kessel, como pouca gente sabe, daquela guerra, deste verso, quase desconhecida guerra, mas ela lá esteve, e trouxe o verso, e por isso os outros versos todos já foram escritos, são chagas, são punhais crescendo bem como fogo, porque tudo é um problema insolúvel...
há fotografias como punhais. e poemas também.
todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila
neles todos estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos e
meu pai e minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto
e também a rapariga feia e bela desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel
talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca terá sido dito deste modo
e foi acontecido durante a guerra sino-japonesa
quase ninguém esteve lá para o ver
mas eu estive. trouxe -o comigo.
é exactamente por esta razão que os meus poemas
já foram todos escritos.
são como chagas alastrando e crescendo em searas de fogo
estando entre a terra e as estrelas.
sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel
MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos
05/10/09
as vogais de água
Maria Azenha
As vogais de água
Rogel Samuel
Azenha nos fala de lugares (sagrados) onde chegam sons misteriosos milagrosos estranhos
sons de vogais de água, talvez de chuvas, talvez de fontes, talvez de mares, novos e
reunidos por assomos de memória, por redes vertiginosas de emblemas, de entoações
concentradas por palavras, por luzes e lanternas, por velas em "ii", por projetos
diluídos em água, em feminina água, em espelhos de água, onde transporta seus sonhos
de um lado para outro, abrindo a fórceps um buraco nos espelhos...
vogais de água
há lugares onde chegam vogais de água
lugares novos espantados que assomam à memória
por redes vertiginosas
as suas entoações concentram-se em palavras fabulosas
palavras luminosas sur-
preendidas pelos castiçais dos ii
um projecto de água
digo:
transportar o sonho de um lado para outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos
MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos
in "ROGEL SAMUEL"
***
in " descer pelos dias"- foto de Maria Costa
28/09/09
da criação à edição
"O Poeta só o será quando a sua imaginação for além da imaginação do Universo"- António Maria Lisboa
Momentos registados:
1.Maria Azenha lendo Poesia inédita de Fernando Esteves Pinto
2. Maria Azenha e Gabriela Rocha Martins interpretando Poesia com as luvas de Aprendizes
3. Outro momento de poesia gestual
4. Gabriela Rocha Martins e Daniel Vieira
5. Daniel Vieira e Lisete Martins
6. Inês Ramos e Fernando Esteves Pinto
7.Inês Ramos, Fernando Esteves Pinto, Gabriela Rocha Martins, Daniel Vieira e Lisete Martins.
Intervenientes: Fernando Esteves Pinto, Gabriela Rocha Martins, Lisete Martins, Maria Azenha, Maria Costa, Daniel Vieira, Adão Contreiras.
Moderadora: Inês Ramos.











