23/02/12

Talvez

Talvez até a Vida seja simples.
Os meus lábios são , por exemplo,
feitos de vento
e a minha voz é uma cortina de fumo
para me defender do frio.

Lembrei-me um dia
de cortar os dedos
para não mais escrever poesia.
(Nunca chorei tanto
em toda a minha Vida!...)

hoje tenho a convicção das dunas,
sei que os meus cabelos
escrevem 365 livros por ano
e procuro sozinha o Infinito.



Maria Azenha
Coração dos relógios
Editora Pergaminho, 1998
http://mal-situados.blogspot.com/search/label/maria%20azenha 

07/02/12

Os amigos






Os amigos são feitos de silêncio e bruma e vivem em casas
cercados de ouro e âmbar. comovem-se como as crianças
depositam ao crepúsculo páginas de bondade e vento .
há amigos que ainda não nasceram e chegam do futuro.
outros,em fragmentos de luz, foram-se embora
a partir de fissuras do poema. e chamam-me para dentro.
e vivem em pomares brancos.
de um amigo a outro, por vezes, cabe a sombra de uma escada
e aprendo a falar por degraus. e digo amor, ave, instrumento
saudade. e sou um rio de pequenos ramos a anoitecer na água.
por vezes encostam o ombro a uma nuvem. ou barco.ou asa
emprestando os seus dedos líricos à página escura do livro
que estou a ler. e são um dia azul muito quente
movido a ar e lume. e sinto-me crescer num arbusto de ternura.
os amigos dormem. estão de olhos abertos. sabem tudo
o que as crianças querem dizer. e são a luz dos meus olhos
quando fico cega. penso-os para toda a eternidade.
são diamantes rodeados de fogo e lágrimas.


Maria Azenha

in Hoje edito, amanhã logo se vê- Maria Gabriela Martins

02/02/12

A Sombra da Romã - CASAL DAS LETRAS



















Maria Azenha
(2012 - Janeiro)




O TORMENTO DA NEVE




Numa cadeira de rodas que não rodava
Vi uma mulher coroada por uma montanha de neve.
Na relva do tapete uma criança de joelhos
Com um pássaro morto no centro da cabeça.
É ela que escreve esta página suja de terra
Com pancadas vivas de violência de sangue e uma gazela.
Não sei se Deus estava presente ou chorava
Mas as janelas sem estrelas e esta beleza sem nexo
Gritaram ouro cortado entre os dedos e o sexo
Cuspiram enxofre para dentro do poema.




Maria Azenha





01/01/12